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Metodologia Paulo Freire revolucionou povoado no sertão

Difamado por bolsonaristas e adeptos do ‘Escola Sem Partido’, educador pernambucano comandou alfabetização de 300 adultos no interior do Rio Grande do Norte em 1963 - experiência que desagradaria a ditadura militar.  

Moradores de Angicos participaram do curso de alfabetização de adultos e ganharam o direito ao voto. Foto: arquivo

Por Marcelle Souza – Repórter Brasil
02/04/2019

Um povoado desconhecido no sertão brasileiro, com alta taxa de pobreza e uma multidão de trabalhadores analfabetos, viveu uma revolução: em apenas 40 horas, um grupo de professores liderados pelo educador Paulo Freire ensinou 300 adultos a ler e a escrever. Mais do que criar novos leitores, a primeira experiência de alfabetização em massa do país, realizada em 1963, em Angicos, no Rio Grande do Norte, gerou novas possibilidades de emprego, deu aos trabalhadores o tão sonhado poder do voto e os ensinou sobre seus direitos – especialmente os trabalhistas.

O resultado deu tão certo que inspirou o Plano Nacional de Alfabetização, que nunca chegou a sair do papel por causa do golpe militar de 1964. Alguns dos principais articuladores da ideia, entre eles o próprio Paulo Freire, terminaram exilados. 

Mais de cinco décadas depois, o ódio ao educador voltou à cena e guia a atual política educacional no país. O presidente Jair Bolsonaro afirmou, enquanto candidato, que entraria com um “lança-chamas no MEC para expulsar Paulo Freire lá de dentro”.

Ironicamente, o projeto executado em Angicos foi financiado pela Aliança para o Progresso, do governo dos Estados Unidos, que via na alfabetização dos brasileiros uma das armas na luta contra o avanço do comunismo na América Latina. Enquanto o método Paulo Freire virou uma bandeira a ser combatida, 13 milhões de jovens e adultos com mais de 15 anos ainda não sabem ler nem escrever, dado que coloca o Brasil entre os dez países com mais analfabetos no mundo, segundo a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

“O projeto de Angicos custava 36 dólares por aluno e o prazo de aprendizagem era curto. Se até hoje não foi retomado, é por intenção de não gerar condições de aprendizagem para uma parte da população, que termina por não desenvolver o seu potencial”, diz o advogado Marcos Guerra, que foi o coordenador da experiência na cidade. Ele explica que a cidade foi escolhida por ter, na década de 1960, o maior índice de analfabetismo do Rio Grande do Norte.

O ex-aluno Paulo Alves de Sousa diz que não guardou nada da época do curso de alfabetização: “Se a polícia pegasse, a gente ia preso”. Foto: Caio Castor/Repórter Brasil

A palavra é TRABALHO
Para angariar os alunos em Angicos, professores percorreram a cidade anunciando porta-a-porta a nova escola. Como a cidade não tinha escolas suficientes, salas de aulas foram improvisadas em casas de moradores e até na delegacia, onde tinham presos e policiais analfabetos. Na década de 1960, 40% dos brasileiros eram analfabetos e só um terço das crianças frequentavam a escola. 

Considerada subversiva pelos militares, a metodologia consistia, primeiro, em levantar palavras que faziam parte do cotidiano dos alunos. “Por exemplo, ‘tijolo’. A professora perguntava quem sabia fazer tijolo, quanto vendia, quem comprava, de quem era o lucro maior – se do proprietário ou do trabalhador que o fabrica. Chamavam isso de aula de politização”, lembra a ex-aluna Maria Eneide de Araújo Melo, 62, que hoje é professora aposentada. 

Naquela época, as condições de trabalho na região eram precárias, havia muita desigualdade social, e a maior discussão se deu quando os professores projetaram para os alunos a palavra ‘trabalho’. A partir desse momento, foram incentivados a ler em sala artigos da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). “Eles passaram a reivindicar direitos, como repouso semanal remunerado e jornada de trabalho, que era intensiva e ultrapassava as horas estabelecidas pela lei. A carteira assinada os entusiasmava”, conta a juíza aposentada Valquíria Félix da Silva, 78, que foi uma das professoras do curso na cidade.

Depois do curso, uma greve na cidade parou a construção de uma obra. Acredita-se que eles teriam sido inspirados pelo ensino dos direitos trabalhistas em sala de aula, com a metodologia freiriana. “Os trabalhadores disseram ao dono da empresa que sabiam que tinham direitos. Eles pediam carteira assinada, repouso semanal remunerado e férias. E o patrão disse: ‘eu não dou isso não, ninguém dá’”, lembra Guerra.

O educador Paulo Freire faz formação de professores para replicarem sua metodologia (Foto: arquivo)
Novos caminhos
Maria Eneide nem tinha completado os 7 anos necessários para iniciar a alfabetização, quando tratou de convencer a mãe e o pai analfabetos de que precisavam aproveitar a nova escola que chegava na cidade. “Meu pai trabalhava na agricultura, saía de manhã e só voltava à noite. Às vezes, ele estava cansado, pensava em faltar, mas a professora ia lá em casa buscá-lo para a escola”, lembra ela, que acompanhou os pais no curso.

Depois da formatura, o pai deixou o trabalho no campo para ser pedreiro e, por fim, virou comerciante na cidade. A mãe, por sua vez, decidiu realizar o sonho de entrar para a aula de corte e costura, porque agora já sabia anotar as medidas.

Mas a pequena Maria Eneide queria ser professora como “a dona Valquíria”, com quem aprendeu a ler na turma de adultos. “Fui alfabetizada no curso de Paulo Freire. Daí, quando eu entrei para o primeiro ano do fundamental, eu já falava de reforma agrária, das leis da Constituição. As professoras não gostavam, diziam que eu estava mentindo. As pessoas não eram esclarecidas naquela época”, diz ela, que acabou estudando pedagogia e hoje é professora na cidade.

Novos leitores e eleitores
A revolução em Angicos aconteceu também pela realização de um desejo antigo de muita gente: o poder do voto. Naquela época, analfabetos não podiam votar. Antes do curso, havia cerca de 800 eleitores cadastrados na cidade. Depois da formatura, o município ganhou 300 novas inscrições.

“A gente que era pobre não era nem bem visto, ninguém podia nem entrar no meio da sociedade, em festa desse povo, porque era pobre, era da cor morena. Mas daí a professora começou a explicar que a gente ia aprender a ler para conhecer os nossos direitos, e eu tinha vontade de aprender, fazer meu nome que era pra votar. E eu aprendi”, lembra Luzia de Andrade, 88.

Apesar do entusiasmo de todos, o clima em 1963 já era tenso no país. Logo após o golpe militar, Paulo Freire foi demitido da então Universidade do Recife, permaneceu 70 dias preso e, em seguida, teve que deixar o país, assim como outros educadores do projeto, como Marcos Guerra.

Em Angicos, estabeleceu-se um silêncio que durou quase 30 anos. Estava proibido falar e lembrar das 40 horas que haviam mudado a cidade. “Quando chegou essa notícia de que o homem [Paulo Freire] tinha sido exilado, que tinha sido preso, muita gente, com medo, escondeu caderno, escondeu livro, queimou”, conta Francisca de Brito, 74. “A gente não tem nada guardado dessa época porque se a polícia pegasse, a gente ia preso”, diz Paulo Alves de Sousa, 77, outro ex-aluno.

Francisca de Brito, ex-aluna, frequentou o curso de alfabetização mesmo sob ameaças da mãe. Foto: Caio Castor/Repórter Brasil

A massa virou povo
Antes do golpe de 1964, a experiência era tão importante para o país que o último dia de aulas em Angicos contou com a presença do então o presidente João Goulart, do presidente da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) Celso Furtado e de governadores de estados do Nordeste.

Em meio às autoridades, um aluno pediu a palavra e improvisou um discurso sobre a experiência na cerimônia de formatura. “Em outra hora, nós era massa, hoje já não somos massa, estamos sendo povo”, disse o agricultor Antônio Ferreira.

O presidente João Goulart ainda ficou curioso ao saber que uma criança tinha aprendido a ler com a metodologia voltada para os adultos. Era Maria Eneide, chamada à frente para testar as novas habilidades para o público ilustre.

“Ele disse: ‘lê aqui’. E eu li. Depois me perguntou: ‘você quer ganhar o que?’ E respondi que queria uma bolsa para levar o material para a escola”. Trinta anos depois, em visita a Angicos, Paulo Freire decidiu refazer a pergunta para a ex-aluna: “se o presidente hoje perguntasse o que você queria de presente, o que você diria?”. “Eu queria salário digno a todos os professores”.



Esta reportagem foi realizada com o apoio da DGB Bildungswerk e publicada originalmente em 30 de março de 2019 no site da Repórter Brasil.

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