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Histórias (quase) esquecidas de repressão no Carnaval

Episódios do começo do século revelam perseguição aos sambistas dos primeiros cordões carnavalescos no país.

Por Vanessa Nicolav – Brasil de Fato
22/02/2020

“Quantas vezes eu não fui preso e me soltaram no outro dia de manhã cedo, por fazer batucada na cidade, por causa de samba. E não era só eu não, tinha muita gente que passou por isso, por fazer, organizar carnaval e fazer roda de samba no centro da cidade.”

Repressão durante o Carnaval de 1969. Foto: Arquivo Histórico de São Paulo  

O autor do relato é Seu Carlão, um dos nomes mais antigos do samba paulista, e responsável pela criação da escola do Unidos do Peruche, na década de 50. Hoje, o senhor com 90 anos relembra que o carnaval, celebrado como maior festa nacional e incentivado pelos poderes públicos em quase todo país, nem sempre foi assim.

“A gente fazia batucada e tinha repressão. Nos prendiam, nos levavam à delegacia e nos deixavam lá, nos dando chá de canseira e iam nos soltar só de manhã. [A repressão] acontecia porque era coisa de negro. Samba era coisa de negro e a sociedade não aceitava. De maneira nenhuma...”

Seu Carlão, durante a adolescência, foi engraxate e tirava seu sustento lustrando sapatos e oferecendo sambas nas imediações da praça da Sé, nos anos 40. Ali, nos intervalos do trabalho, os jovens trabalhadores jogavam tiririca - brincadeira de rasteira com movimentos semelhantes à capoeira - e tocavam samba em suas caixas de engraxar. Associado à vagabundagem, os pequenos sambistas eram constantes alvos de repressão policial. 

“Nesses locais havia muitos cinemas, locais públicos onde os homens de posse vinham com suas esposas e os engraxates se concentravam na porta desses cinemas. Então, era muito comum que eles fossem expulsos pela polícia, que queria que esses locais fossem associados a pessoas de dinheiro, e não a jovens trabalhadores negros. Eles eram um incômodo ali”, explica o pesquisador.

Bloco de rua em São Paulo no Carnaval de 1969. Foto: Arquivo Histórico de São Paulo

Outro local conhecido pela concentração de rodas de samba no começo do século, o Largo da Banana, também recebia constantemente a visita de forças policiais, na busca de “vagabundos”.

Ali, segundo afirma o historiador Bruno Bornetti, os estivadores e a população negra, que ocupavam o espaço após o expediente, tinham seus instrumentos retirados e muitas vezes eram presos. Para ele, o racismo e o preconceito de classe eram também os principais motivos da repressão. 

“Eles não queriam mostrar um carnaval africanizado, um carnaval formado por negros e mulatos, formados por pessoas pobres e que era altamente contagiante, que era altamente popular e que trazia nessa memória afetiva, que as pessoas que escutavam, se movimentavam muito mais, do que esse carnaval de polcas, de espaços fechados de brancos", completa Bornetti.

Não apenas as antigas rodas de samba e cordões de carnaval foram alvo de repressão do Estado. Durante a década de 70, com as escolas e os desfiles oficiais já consolidados, a produção de sambas enredos, que reivindicavam heróis brasileiros de origem negra, também não foram bem vistas pelas forças do Estado.

Com a autoria do sambista Geraldo Filme, e com o título de Heróis da Resistência, o samba enredo da escola Unidos do Peruche foi responsável pela intimidação dos carnavalescos e a invasão do barracão da escola pela polícia militar. 

“Naquele ano houve infiltração na escola. Nós estávamos na ditadura. Então achavam que ali era um núcleo de resistência, mas a gente só tava falando da história do Brasil. Faltando um mês, um mês e meio para o carnaval arrebentaram toda a quadra, furaram os instrumentos, bateram na minha mulher, nos meus filhos, bateram em todo mundo que tava lá. Atiraram, teve pessoa que foi ferida, levamos para o Hospital das Clínicas, ficou machucado. Foi um deus nos acuda...” lembra Seu Carlão, que era um dos principais sambistas na época.

Dirceu Silva, ou H, como é conhecido, antigo integrante do Unidos da Peruche, também estava presente durante o evento. “Eu estava mais ou menos com 12 anos. Meu pai era baliza do Peruche e me lembro da chegada da cavalaria, meu pai pegava a gente pela mão e a gente tinha que sair correndo.”

Ele comenta que as marcas da violência ainda estão presentes na memória e corpo da escola. Nós temos ainda muitas pessoas, da velha guarda que tem até marca de borrachada, de cavalo que veio em cima”, comenta o carnavalesco.

Bloco Cordão da Bola Preta em 1987. Foto: Arquivo Histórico de São Paulo

Sobre a tensão ainda presente entre forças do Estado e manifestações carnavalescas – como, por exemplo, a repressão policial a blocos de rua e a difamação do carnaval de rua pelo próprio presidente, no ano passado -, Dirceu comenta que o empoderamento comunitário e a espontaneidade popular impulsionada pelos blocos e pelas escolas de samba são mal vistos pelo governo.

“A gente aprendeu a correr atrás de nossos direitos, participar, conviver, realizar. Só que isso incomoda alguns governos. E o medo que dá, saber dos próprios direitos? Como a gente aprendeu a andar com nossas próprias pernas isso incomoda muito”, afirma Silva. 

A luta encampada por Seu Carlão, pela memória e valorização do samba, ainda não acabou. Atualmente presidindo a Associação Independente Cultural da Velha Guarda do Samba de São Paulo, o sambista luta pela criação de um camarote no sambódromo do Anhembi dedicado à velha guarda do samba.

“Nos dias de hoje, a gente luta para conservar um espaço para nós da velha guarda do samba. Nós continuamos com essa resistência, queremos nosso espaço. Estamos lutando”, conclui.

Confira a reportagem em vídeo:

 

Edição: Leandro Melito – Brasil de Fato

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